Inspiração do Site

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Jean de Meun, Miniatura em um manuscrito do "De Consolatione Philosophiae", Paris 1460 "

A Filosofia consola Boécio ante os azares da Fortuna

Por que "A Consolação da Filosofia"?

A origem de nossa ideia

O “De Consolatione Philosophiae” (Sobre a Consolação da Filosofia) é a principal e mais conhecida obra de Boécio (480 – 524), um autor que viveu entre os anos finais da Antiguidade Clássica e início do período Medieval. 

Pertencia a uma importante família de patrícios que contava com Papas e Imperadores entre seus ancestrais. Em vista disso, exerceu importantes cargos políticos sob o domínio do rei bárbaro Teodorico. Em 505 tornou-se Senador e Cônsul em 510. Finalmente, em 522, recebeu o cargo de “Magister Officiorum”, uma espécie de primeiro-ministro.

Por sua condição social, recebeu uma esmerada educação que lhe permitiu ter acesso aos grandes sistemas filosóficos da Grécia Antiga. Consciente do período histórico em que vivia, idealizou um projeto cultural que compreendia a tradução e o comentário de todas as obras de Aristóteles e de Platão, preservando assim os saberes da antiguidade clássica grega e introduzindo no mundo de língua latina um sistema filosófico que sintetizava e harmonizava as posições aparentemente divergentes desses dois grandes autores.

Infelizmente esse projeto nunca se completou. Em 523, foi falsamente acusado de conspirar contra o Rei em favor do Imperador do Ocidente. Boécio foi preso e condenado a morte. Na prisão, escreveu o “De Consolatione Philosophiae”. Última obra, no Ocidente, considerada como pertencendo ao período clássico.

No livro, Boécio está aflito na prisão aguardando por sua execução e é consolado por uma personificação feminina da filosofia. Com ela discute sobre o caráter efêmero dos bens mundanos e sobre a verdadeira felicidade que consiste na virtude e na superioridade da formação intelectual. 

Os escritos de Boécio como um todo exerceram uma enorme influência em toda a Idade Média, especialmente nas artes liberais, na filosofia e na teologia. As sete artes liberais eram os estágios iniciais e preparatórios para a formação superior em filosofia e teologia. Estava dividida em dois estágios, os estudos do Trivium voltados para a formação da linguagem (gramática, retórica e lógica) e o Quadrívium ligados à formação científica (aritmética, geometria, música e astronomia).

Em sede de filosofia, Boécio serviu de base, com suas traduções e comentários ao Organon de Aristóteles, para praticamente tudo que sabia na Alta Idade Média referente à lógica. Sua tradução e comentário do Isagoge de Porfírio influenciou o debate em torno ao problema dos universais.

Personificação da Filosofia. Manuscrito Consolação da Filosofia

A Filosofia e as 7 Artes Liberais

Também abordou importantes questões como a noção de pessoa, de indivíduo e, ainda que não formalmente explicitado, o conceito de bem como um transcendental. Já em teologia, produziu tratados sobre temas cristológicos, trinitários e sobre a fé em geral. Dessas obras se destacam o “De Trinitate”; o “Utrum Pater et Filius et Spiritus Sanctus de divinitate substantialiter praedicentur”; o “De fide Catholica” e o “Contra Eutychen et Nestorium”.

Este site está inspirado na história e no projeto cultural de Boécio. Certamente não tenho a pretensão de me equiparar à grandiosidade de sua pessoa e obra. Contudo, assim como ele, é também meu desejo valorizar e transmitir o tesouro da Filosofia Perene iniciada com Sócrates, Platão e Aristóteles na Antiguidade e consolidada pelos grandes pensadores medievais.

Nosso contexto histórico e social de algum modo se assemelha ao do Senador Romano e Pai da Escolástica. Vivemos em um período de transição de uma sociedade que vira as costas para suas raízes greco-romana e judaico-cristã.

Calada por doutrinas materialistas, nihilistas e existencialistas, a filosofia já não vem mais caracterizada pela busca do bem, do verdadeiro e do belo como propriedades do conhecimento objetivo da realidade. O positivismo, o sócio-construtivismo e o relativismo transformaram o direito na imposição de uma lei sem fundamento na verdade sobre o que é um bem para a pessoa humana e para a sociedade.

O secularismo, buscando abafar os valores judaico-cristãos, prega uma tolerância que parece estar condicionada à existência de um grupo que a todos deve tolerar, mas que não merece a tolerância de ninguém. Dessa forma, o materialismo se configura como a única visão de mundo aceitável e a abertura ao Transcendente, quando muito, é relegada à esfera subjetiva e privada.

Diante de tudo isso, também hoje a Filosofia Perene se apresenta para nós como um consolo! Espero, ademais, que esta modesta iniciativa seja um catalizador para a formação de uma comunidade de estudiosos das artes liberais, da filosofia antiga e medieval que, bebendo das fontes da tradição perene, se torne um núcleo de produção cultural e filosófica. Dessarte, “A Consolação da Filosofia” poderá assumir outro sentido quando esses frutos, hoje desejados, se tornem uma consolação para própria Filosofia.

Prof. Ivo Fernando da Costa

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