• Ivo Fernando da Costa

O que é a filosofia

Nos últimos posts, chamei a atenção para vários aspectos referentes a um conceito bastante difundido de Filosofia que se baseia no significado etimológico da palavra: “amor a Sabedoria”. Agora pretendo explicar brevemente uma definição mais técnica bastante difundida entre os filósofos escolásticos da Idade Média, mas que hoje em dia anda um pouco esquecida...





Uma das qualidades cultivadas pelos pensadores medievais era a síntese e a precisão conceitual. Nesse sentido elaboraram uma definição de Filosofia que resume em uma frase tudo aquilo que temos refletido até agora sobre a Sabedoria: “A Filosofia é a ciência de todas as coisas, por meio de suas causas últimas, adquirida com a luz da razão natural” (Philosophia est scientia rerum omnium, per causas ultimas, naturali rationis lumine comparata).


4 A filosofia é uma “ciência”: é um conhecimento que vai além da simples experiência adquirida por um processo de tentativa e erro. Uma criança aprende que os objetos caem pela sua própria experiência. Um cientista sabe explicar a gravidade com as leis da física. A ciência implica um conhecimento dotado de um determinado grau de certeza viabilizado pelo conhecimento das causas.


5 “Ciência de todas as coisas”: o sábio é aquele que de certo modo conhece todas as coisas, mas não de maneira extensiva, ou seja, um conhecimento meramente cumulativo ou enciclopédico de fatos, mas um conhecimento extensivo que se dá por uma investigação daquilo que é essencial nas coisas. Isso propicia ao filósofo a visão não só das coisas individualmente, mas também da relação e harmonia entre elas, o que para elas é o bem, a verdade a beleza. O conhecimento da essência também nos eleva para além das próprias coisas, pois conhecer a essência das coisas, suas relações mútuas e harmônicas, nos conduz ao conhecimento da finalidade dos objetos conhecidos. Isso é análogo àquilo que fazem os arqueólogos. Quando se descobre uma antiga construção, o arqueólogo procura primeiramente entender a sua estrutura, a sua essência, isto é, o que é isto que estou vendo. A partir desta informação, descobrimos “para que é isso?”


6 “Por meio de suas causas últimas”: O conhecimento científico é aquele que é adquirido com o conhecimento das causas dos fenômenos. Um pescador, por experiência, sabe qual é a maré mais propícia para a pescaria, mas pode não saber as causas que explicam a variação das marés como, por exemplo, a influência da gravidade da Lua e do Sol sobre a terra. Existe diferenças entre o conhecimento filosófico e o científico que não detalharei agora. Contudo, uma diferença marcante é que a ciência moderna foca no estudo das leis ou causas concretas ou particulares de um fenômeno determinado. A ciência está restrita àquilo que é mensurável e quantificável por meio de instrumentos e experimentos controlados, descrevendo matematicamente os fenômenos com um método definido. A filosofia estuda qualquer coisa, nada escapa de seu alcance, pois ela não fica restrita nos domínios do método matemático-experimental. Além domais, ela não está preocupada com as causas particulares, mas com mais universais e gerais. Por isso que a própria ciência é objeto da filosofia. A ciência, por outro lado, não aborda temas filosóficos, ela somente os supõe. Por exemplo, a ciência não explica nem estuda as leis da lógica de do raciocínio. Ela simplesmente assume e usa estas leis em suas inferências. A ciência tem um método pelo qual ela foca nos aspectos quantificáveis e matematizáveis da realidade. Mas este próprio método não se justifica cientificamente, é uma opção filosófica, mas concretamente epistemológica. Um exemplo concreto, tanto a ciência quanto a filosofia estudam a matéria. O filósofo procura entender racionalmente as propriedades universais da matéria em si. O físico e o químico tentam entender o comportamento da matéria usando, por exemplo, um espectrômetro de massa ou um acelerador de partículas. Aristóteles como filósofo, usando somente a sua razão afirmou que uma propriedade essencial da matéria é a de ser pura indeterminação, “algo” que pode sofrer infinitas configurações distintas. Heisenberg, estudando experimentalmente o comportamento quântico das partículas subatômicas formulou o “princípio da incerteza”: nos níveis mais fundamentais da matéria, não temos como afirmar categoricamente se, por exemplo, um elétron é uma partícula ou uma onda, pois ele se comporta das duas maneiras dependendo das circunstâncias.


“Adquirida com a luz da razão natural”: esta frase ajuda a marcar a diferença entre filosofia, ciência e teologia. Outro ponto que distingue a ciência moderna é que ela se realiza por instrumentos possibilitam a elaboração de experimentos e observações que vão além de nossa capacidade sensitiva. Um exemplo clássico disso é o caso de Galileu Galilei. Durante certo tempo conviveram dois sistemas para explicar a órbita dos planetas: o geocêntrico do astrônomo egípcio Ptolomeu que assumia que a Terra estava parada no centro do universo e o heliocêntrico de Copérnico que colocava o Sol ao centro. Os dois sistemas eram equivalentes, explicavam os mesmos fenômenos e faziam as mesmas previsões. Somente quando Galileu teve a ideia de usar sua luneta para observar o céu é que a balança começou a se inclinar mais para o lado do heliocentrismo. Com a luneta, o astrônomo italiano observou muitas coisas que não se viam a olho nu: as manchas solares, as fazes de Vênus, as luas de Júpiter... e tudo isso se explicava melhor com o modelo heliocêntrico.


A filosofia tem como objetivo refletir para além da informação captada pelos sentidos. Por exemplo, o filósofo observa um gato, em seguida observa outro e assim sucessivamente... vamos supor que este filósofo, em toda sua vida tenha observado 500 gatos. Este número não é a totalidade dos gatos que existem hoje, nem muito menos dos existiram no passado e menos ainda dos que podem existir no futuro. Mas a partir dessa sua observação limitada o filósofo infere uma propriedade essencial dos gatos: todo gato mia. Isso se aplica aos 500 gatos atualmente observados, aos atualmente existentes, mas não observados, aos do passado e aos do futuro. Por isso que a filosofia é um saber geral, e abstrato, visto que os dados concretos e tangíveis são sempre mutáveis e sujeitos a novos entendimentos. Existem infinitas possibilidades de como um gato pode subir em uma árvore: rápido ou devagar, por um lado ou por outro, até um galho ou outro... tudo isso depende de uma série de circunstâncias. A filosofia tem como ambição um conhecimento geral e universal.


Por outro lado a teologia estuda Deus com causa última e universal de todas as coisas, mas é um discurso que tem como fundamento aquilo que se acredita com a fé. A fé é um tipo de conhecimento que recebemos e aceitamos por meio da autoridade ou testemunho de outro. Ou seja, são dados que não podem ser adquiridos com unicamente com a razão. Quando estudo, por exemplo, a Segunda Guerra, a informação que adquiro não é de primeira mão, não vivenciei pessoalmente a Guerra. Muito provavelmente tampouco tive acesso direto aos documentos históricos primários como um tanque usado na batalha, a carta de um soldado à sua namorada, etc. O mais provável é que eu acredite na autoridade do meu professor de história, pois ele sim, se supõe, que fez uma pesquisa histórica de graduação ou pós-graduação. Teve acesso aos documentos primários. Inclusive, muitas vezes, o próprio historiador tem que confiar na pesquisa de outros colegas, pois ele mesmo não pode ser um especialista em tudo. Pode ser que meu professor de história tenha estudado a funda a

Segunda Guerra, mas como ele não pode saber tudo, tenha que recorrer a pesquisa de outro estudioso quando tiver que falar da caída do Império Romano.


Como conclusão, podemos dizer que a filosofia é uma excelente ferramenta para crescermos em nossa formação intelectual. Para sairmos daquele conhecimento mecânico e simplesmente experiencial do dia a dia. Para isso não é preciso equipamentos caros e muitos recursos, mas somente a nossa razão. Além disso, não precisamos começar do zero. Os filósofos, e suas obras ao longo dos séculos, são para nós como guias nesse caminhar. Mais ainda na era da Internet em que todos os clássicos estão gratuitamente disponíveis em domínio público!





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