• Ivo Fernando da Costa

Graus de Abstração

Santo Tomás, no seu Comentário ao livro De Trinitate de Boécio apresenta os 3 graus ou tipos de abstração. São eles: (1) abstractio totius; (2) abstractio formae e (3) separatio.

Antes de partimos para a exposição dos graus de abstração, é preciso ter presente uma distinção feita por Santo Tomás referente à noção de matéria. Diz-se material tudo aquilo que tem uma razão de substrato que funge como princípio potencial distintivo dos entes.


Assim a matéria prima é um substrato, de fato é o substrato último que sustém as transformações substanciais. Temos a matéria segunda, ou matéria afetada pelo acidente da quantidade. A própria substância inclui em si uma conotação material pois é o substrato dos acidentes.





Por outro lado, com “abstração”, entendemos aquele processo mental que foca certos aspectos do ente desconsiderando outros. Em geral, dizemos que um conceito é mais abstrato na medida em que este se encontre mais depurado de elementos materiais. A abstração significa, portando, uma apreciação do ente em seus aspectos inteligíveis e imateriais.


Nesse sentido, ao falar dos graus de abstração, Santo Tomás distingue quatro tipos de matéria: a sensível e a inteligível que podem, respectivamente ser individual e comum. A matéria sensível é aquela ligada às qualidades que são objeto de apreciação imediata dos sentidos: cor, cheiro, tato... são os traços individuantes de um ente captados pelos sentidos. Esta matéria sensível pode ser individual ou comum. Santo Tomás fala de “esta carne” e “estes ossos” como exemplos de matéria sensível, mas poderíamos adicionar: “esta cor branca”, “esta altura”, “este cheiro” etc. Como exemplo de matéria sensível comum, ou seja, considera em geral temos: “carne”, “ossos”, “branco”, “altura”, “cheiro”.


Por matéria inteligível entendemos aqueles aspectos do ente que não são captados pelos sentidos, mas que conhecemos mediante a ação do intelecto que revela o que está por debaixo das qualidades sensíveis como seu substrato. Essa matéria inteligível pode ser também individual ou comum. Temos assim “esta extensão” que é o suporte para “esta cor” ou “extensão” em geral. Resumo estas ideias no quadro abaixo:



Agora podemos passar, de fato, à exposição dos graus de abstração:


(1) ABSTRAÇÃO DO TODO: processo pelo qual extraímos os conceitos gerais dos entes individuais. Da experiência, digamos, de vários cavalos formulamos a noção universal de “cavalo” que se inclui igualmente em cada um dos indivíduos concretos. Abstraímos do indivíduo a sua matéria sensível particular, e ficamos com a matéria sensível comum que entra em sua essência. Por exemplo, Sócrates é este homem concreto com “esta carne” e “estes ossos” que lhe são próprios como indivíduo. Agora, quando abstraímos a essência geral de “homem”, nela deve ser incluída necessariamente a matéria sensível comum: o “homem” é um “animal racional”, faz parte da essência humana a matéria, possui um corpo de “carne e osso”.


Santo Tomás afirma que este tipo de abstração é o que fundamenta a ciência física. No entanto, é preciso ter presente que a “física” para a filosofia antiga e medieval não é exatamente aquilo que hoje chamamos de física. Esse termo para os antigos tem um escopo mais amplo e seria para nós o que se entende hoje como ciências naturais. Ou seja, a física englobaria, por exemplo, a biologia, a química e, é claro, a própria física.


(2) ABSTRAÇÃO DA FORMA: esse grau de abstração está na base da matemática. Nele se consideramos da realidade somente aqueles aspectos que podem ser pensados à parte da matéria sensível tanto individual quanto comum. Isto é, enquanto o objeto das ciências naturais só existe nos singulares e se pensa vinculado aos singulares, os objetos matemáticos são aqueles que só existem no singular, mas que podem ser pensados de maneira separada. Um triângulo só existe nos triângulos concretos. Porém, na matemática, os conceitos estão mais afastados dos singulares. Enquanto o “cavalo” se pensa sempre pertencendo ao cavalo concreto com sua matéria sensível, a matemática pode ser elaborada sem referência a matéria sensível. Para o matemático não importa se o triângulo é de madeira ou de plástico, mas o cavalo é um animal que inclui em sua essência a corporeidade, ou seja, não posso pensar no cavalo sem considerá-lo em seus traços sensíveis corporais.

Santo Tomás, contudo, afirma que no nível da matemática ainda resta o que se chama de matéria inteligível comum. Podemos pesar dois triângulos retângulos como as mesmas medidas, mas que são distintos. Pelo fato de serem distintos há algo de material de marca a diferença deste para aquele triângulo pensado. Esta diferença é a extensão ou quantidade que, com sua propriedade de divisibilidade, funda a matemática.

(3) SEPARAÇÃO: aqui consideramos o ser mesmo das coisas. Aqui o intelecto abstrai tanto a matéria sensível como a inteligível. Neste nível se encontra a ciência Metafísica que estuda o ente enquanto ente e não o ente enquanto sensível ou marcado pelo acidente da quantidade. O ser, ou ente, não depende da matéria pois se encontra também nos seres espirituais, como Deus e o anjos, e materiais. Em definitiva, a metafísica abarca tudo aquilo que é ou existe em suas propriedades (uno, bom, verdadeiro e belo), princípios e causas mais gerais.


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REFERÊNCIAS:

SANTO TOMÁS DE AQUINO, Comentário ao Libro de Trinitate de Boécio, q. 5, a. 3.

SANTO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, I, q. 85, a. 1, ad 2





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