• Ivo Fernando da Costa

Nominalismo e arte contemporânea


No documentário “Por que a beleza importa?”, há um curto diálogo no minuto 46 que costuma passar despercebido. É a parte do programa em que Roger Scruton critica a vulgarização da arte contemporânea.


Como exemplo, se evoca a obra “My Bed” de Tracey Emin. Trata-se de uma cama desarrumada em uma galeria de arte. Ato seguido, em uma entrevista a autora é perguntada: “o que é que torna isso arte em vez de uma simples cama bagunçada?” Ao que ela responde: “Bom, a primeira coisa que a converte em arte é porque eu estou dizendo que é!”


Tal atitude não é nova. Nos últimos anos temos presenciado, de maneira cada vez mais intensa, uma enxurrada de “obras” que buscam impor e dizer para as pessoas comuns aquilo que ela devem consumir como “arte”. Não importa se é algo bizarro como o “Urinol” de Duchamp. Quem não aprecia isso — dizem — é um alienado preso a padrões burgueses de beleza...


Isso é ainda mais evidente na assim chamada “7ª arte”. Obras consagradas do cinema são reeditadas (ou melhor, desconstruídas) em nome de pautas identitárias, relativistas, pós-modernistas... O herói já não é tão bom; o vilão não tão mal; o grande pecado que legitima o cancelamento de tudo e de todos é a “falta de representatividade” e não a de conteúdo...


De fato, sem conteúdo objetivamente belo, há somente duas estratégias: escolher uma obra ou personagem já consagrado (sabem que chamará a atenção) e transformá-lo em um ativista social, muitas vezes inclusive de maneira desonesta apresentando uma coisa e entregando algo diverso; outra possibilidade é apelar para o chocante, para o bizarro, para os instintos mais baixos do ser humano.


Basta olhar, por exemplo, para o caso do novo “He-man” da Netflix. A série clássica não é lá grandes coisas, mas a usaram para entregar pautas feministas e de gênero a custas de transformar o protagonista em um bobão contador de piadas dignas de tiozão do churrasco. Ou para a nova série do Senhor dos Anéis que, segundo os produtores, “necessita de mais conteúdo sexual”...


A pergunta que sempre se faz é a seguinte: Como chegamos nisso? Ao meu ver há duas causas. Hoje comentarei somente uma delas, o nominalismo.


O nominalismo é uma das três grandes correntes da escolástica medieval que, junto com o escotismo, ganhou força como reação ao “Averroísmo Latino” do final do século XIII e no qual Santo Tomás também foi injustamente enquadrado.


No pensamento clássico herdado de Platão e Aristóteles, a multiplicidade das coisas mutáveis possuem um elemento inteligível que torna possível nosso intelecto captar a unidade em meio da multiplicidade; a ordem em meio do caos. Por exemplo, todos somos pessoas distintas, mas também percebemos algo em comum que nos une e nos torna iguais, a nossa humanidade ou essência.


Nesse sentido, a arte sempre visou apontar para esse elemento inteligível da realidade por meio da estética. A partir da experiência sensorial de uma obra bela, temos um vislumbre daquilo que há de universal e inteligível nas coisas, de algo que nos toca como seres humanos e que, nesse sentido, transcende a própria obra de arte.


Por outro lado, o nominalismo nega que a essência das coisas seja algo real. Ela seria somente um nome reúne uma coleção de coisas semelhantes ou, no máximo, um produto de nossa mente. Agora, se a realidade não possui um aspecto inteligível que possa ser objetivamente compreendido por todos, ela consistirá somente em vontades subjetivas e irracionais buscando se impor umas sobre as outras.


A arte contemporânea é uma arte nominalista. O belo é só um nome ou um conceito de nossa mente sem correspondência com a realidade. Ela já não nos apresenta um ideal que nos une e nos estimula a ser melhores; perdeu seu elemento vertical. Só lhe resta um horizonte caótico de meros estímulos dos quais não podemos emitir um juízo de valor.


Como afirma Roger Scruton: “isso é a vida moderna apresentada em todo seu caos e desordem [...] como pode isso ser uma obra de arte bela se não faz nenhum esforço em transformar os materiais brutos em um ideal? É somente mais uma realidade suja. Literalmente, uma cama por fazer.”


Ao público sobra aceitar passivamente tudo que nos vem imposto, abdicando a razão... ou resistir!

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