• Ivo Fernando da Costa

O ateísmo:

Uma visão reducionista da realidade

Trajetórias de partículas subatômicas após uma colisão.

Apresentado frequentemente como o desfecho de um raciocínio cientificamente embasado, uma das principais premissas que sustenta o ateísmo é o materialismo. Contudo, tal conclusão não passa de um posicionamento filosófico, mais concretamente metafísico, que visa compreender a realidade como um todo em seus traços essenciais.


Para o materialismo, tudo aquilo que é real deve forçosamente ser material ou estar relacionado com as interações que se dão entre os objetos materiais. Qualquer coisa que se diga de natureza imaterial é automaticamente rotulada de linguagem sem sentido e sem lastro na realidade. Em poucas palavras, algo inexistente.


Como já se pode notar, o materialismo é um reducionismo. Isso fica evidente se o comparamos, por exemplo, com a teoria das 4 causas elencadas no Capítulo 2, Livro 5º da Metafísica de Aristóteles: causa final (o porquê: aquilo em função do qual algo está feito), formal (a essência ou forma: como está feito), eficiente (agente: quem faz ou princípio do movimento) e material (matéria: aquilo do qual está feito).


Sob esse aspecto, o materialismo representa a eliminação ou desconsideração de duas das causas da realidade: a final e a formal. Tudo se reduz à matéria e movimento. Somos somente um amontoado de partículas com algumas semelhanças aparentes em um constante processo de modificação.


Dito de outra forma, o ateísmo como metafísica imanentista consiste não somente na afirmação de que o mundo consta de matéria e movimento — coisa que Aristóteles não tem problema em aceitar —, mas na afirmação qualificada pela negação de que as coisas possuem uma essência real e que, graças a essa essência, atuam com uma finalidade.


Sem a causa formal, torna-se sem sentido, por exemplo, qualquer discurso sobre a igualdade ou sobre os direitos humanos: a pesar de nossas diferenças somos todos iguais porque participamos todos de uma mesma essência; uma essencial real que está na base de nossa dignidade como pessoas conscientes e livres.


Agora o que são os “direitos humanos” senão mecanismos jurídicos — estabelecidos em virtude dessa dignidade — que visam garantir nosso pleno desenvolvimento como seres da espécie humana? Se negarmos que o ser humano tem uma finalidade, porque estabelecer normas para garantir um fim que não existe?


Mas porque isso conduz ao ateísmo? A essência define o que somos (animais racionais) e, ao mesmo tempo, é algo comum que de certa forma transcende os indivíduos particulares. Por outro lado, negar a causa final implica não somente assumir o absurdo que as cosias atuam de modo caótico e imprevisível, mas significa também, em última análise, negar a causa final de toda a realidade que é Deus.



BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:


MOULINES, C. Ulises. Por qué no soy materialista. Crítica, v. 9, n. 26, p. 25–37, 1977. (Link)

FABRO, Cornelio. Deus – Introdução ao Problema Teológico. São Paulo: Editora IVE, 2020.

FABRO, Cornelio. FEUERBACH-MARX-ENGELS, Materialismo dialettico e materialismo storico. 6. ed. Brescia: La Scuola, 1977.

FABRO, Cornelio. Introduzione all’ateismo moderno. Roma: Editrice Studium, 1964.

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