• Ivo Fernando da Costa

Um pormenor esquecido sobre o Caso Galileu

A ciência do Inquisidor X a teologia de Galileu


Entre as décadas de 60 e 70 esteve muito candente, na filosofia da ciência, o debate sobre a “questão da demarcação” entre o que é ou não ciência. Um dos grandes responsáveis pela discussão foi Karl Popper com sua obra “A lógica da pesquisa científica”.


Mas, com o passar do tempo, a reflexão filosófica tem demonstrado que é muito difícil definir exatamente o que é a ciência. Apesar disso, Popper deixou como herança muitos conceitos chaves para podermos ter pelo menos um norte na hora de avaliar se algo é ou não ciência. O principal deles é, sem dúvida, a noção de falseabilidade. Dela decorre que todas as teorias ou proposições que pretendem ser científicas devem ser tradas como conjeturas. Na ciência não temos verdades absolutamente incontestáveis. Uma proposição científica está sempre sujeita a ser falseada, ou seja, reavaliada, modificada ou descartada.


Uma teoria seria uma conjetura que foi corroborada por um acúmulo de evidências observacionais. Já uma hipótese seria uma conjetura ainda não corroborada, isto é, uma tentativa provisória de resposta ao problema.


O que isso tem a ver com o caso Galileu? Resulta que o Cardeal Roberto Belarmino (inquisidor e amigo de Galileu) sempre apoiou publicamente cientista florentino com a condição de que defendesse o heliocentrismo como hipótese e não como uma verdade incontestável.





Havia na época outros dois modelos que explicavam igualmente o movimento dos planetas: o antigo de Ptolomeu e o de Tyco Brahe, contemporâneo de Galileu. Galileu não tinha a prova definitiva do heliocentrismo e sua teoria sobre as marés, invocada para tal fim, resultou ser totalmente falsa.


Essa prova viria somente em 1833 com a medição da paralaxe de estrelas próximas. Uma das críticas feita a Galileu na condena de 1633 foi a de ter afirmado o heliocentrismo como resposta definitiva e nem sequer ter abordado o sistema de Tycho.


Portanto, do ponto de vista da epistemológico, o Cardeal tinha um posicionamento mais científico que Galileu.

No entanto, São Belarmino insistia que a interpretação literal das escrituras deveria ter um papel na espera científica. Isto é, na ausência de evidências suficientes, deveríamos olhar favoravelmente para o geocentrismo em função do que estava escrito na Bíblia.

Contudo, Galileu sempre afirmava que “a bíblia não diz como vão os céus, como se vai ao céu”. Teologicamente, o cientista estava correto.


 

REFERÊNCIAS:

LANGFORD, Jerome. Galileu Science and the Church. Michigan: University of Michigan Press, 1992.

BRODRICK, James. The Life and Work of the Blessed Robert Francis Cardinal Bellarmine. Londres: Burns, 1928.

FANTOLI, Annibale. Galileu. Pelo Copernicanismo e Pela Igreja. São Paulo: Loyola, 2010.

POPPER, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo: Cultrix, 2013.


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