Educar para Contemplar
- Ivo Fernando da Costa
- há 6 dias
- 5 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
A meta última da educação segundo Aristóteles e Santo Tomás
A palavra grega para educação é paideia. Ela designa a formação integral do ser humano segundo um ideal de excelência. A Paideia, porém, possui um significado mais rico que vai muito além do que hoje muitos entendem por educação como instrução técnica ou transmissão de informações. Ela pressupõe que o educando traz em si uma natureza e capacidades a serem desenvolvidas segundo uma ordem que lhes é própria. A etimologia latina confirma essa intuição: educere significa conduzir para fora, extrair o que está em potência, atualizar o que existe em germe.
Essas capacidades de nossa essência ou natureza, em seu nível mais fundamental, são duas: a inteligência consciente orientada para a verdade e a vontade livre orientada para o bem. Os animais também realizam sua natureza e suas capacidades, mas fazem isso movidos pelo instinto.

Por exemplo, um joão-de-barro constrói sua casa com regularidade e perfeição, mas sem consciência da finalidade que cumpre e sem necessidade de aprendizado. O ser humano age de modo radicalmente diferente: concebe fins, delibera sobre meios, escolhe livremente e, para realizar a finalidade inscrita em seu ser, necessita ser instruído na verdade e no bem. Existe uma diferença qualitativa entre o homem e o animal. E é exatamente essa diferença que torna a educação não apenas possível, mas necessária porque nenhum ser humano se torna plenamente humano por uma simples maturação biológica.
Há uma conexão etimológica entre duas palavras gregas que ilumina toda a concepção clássica desse ideal de educação. Theatron (teatro) que deriva de theaomai: assistir; e theoria que, por sua vez, remete a theos (Deus) e horao (ver), ou seja: ver a Deus. Para os gregos, a ação mais sublime que a natureza humana podia executar estava ligada à capacidade do intelecto e da vontade de se conectar com o transcendente.
Assim sendo, o teatro grego não era apenas entretenimento, mas um ato religioso onde o público refletia sobre a intervenção dos deuses na vida humana, ponderando sobre o destino, a culpa, os dramas de nossas escolhas e suas repercussões. Assistir a essas apresentações era uma espécie de cuidado da alma que tornava o indivíduo mais sábio através da contemplação das experiências humanas.
***
A educação clássica herda essa estrutura: começa pelo cuidado da alma, passa pela ordenação do intelecto e da vontade e aponta, em seu horizonte mais elevado, para a contemplação de Deus. Diante deste panorama, surge a pergunta: mas qual é o fim do homem? O que ele deve buscar? Nesse sentido, Aristóteles abre a Ética a Nicômaco com uma afirmação simples: todo ser humano busca ser feliz.
A felicidade é o fim dos fins, o horizonte que hierarquiza todas as metas parciais da vida. Mas a questão decisiva é em que ela consiste. Aristóteles recusa as respostas fáceis: prazer, riqueza, poder, honra. Ele, ao contrário, propõe um critério mais rigoroso: a felicidade não é um estado passivo de contentamento, mas uma atividade. É o exercício excelente das capacidades próprias do ser humano. Assim como uma boa caneta é aquela que escreve bem, uma vida humana boa é aquela em se exerce com excelência a atividade que é a mais própria de nossa essência, daquilo que nos define.

Essa conclusão tem uma consequência direta para a educação: se a felicidade consiste no exercício excelente do que há de mais próprio no homem, então educar é, precisamente, preparar o ser humano para ser feliz. Não no sentido sentimental e difuso que a palavra adquiriu na modernidade, mas no sentido rigoroso e exigente de Aristóteles: formar as capacidades que definem a humanidade, de modo que o educando possa exercê-las com excelência.
Certo, mas qual seria a atividade mais nobre que nossa alma racional pode exercitar? No décimo livro da Ética, Aristóteles conduz sua investigação ao seu ponto mais alto: a felicidade em sentido pleno consiste na vida contemplativa. A contemplação (theoria) é a atividade mais perfeita do intelecto, porque o intelecto é a parte mais elevada do homem e porque o objeto mais nobre que ele pode alcançar é Deus.
***

O argumento é de uma lógica serena: se a felicidade é o exercício excelente da capacidade mais própria do homem, e essa capacidade é o intelecto, então a atividade que mais realizará o homem e suas capacidades será aquela em que o intelecto se volta para o objeto mais elevado que existe.
Uma comparação com a visão ajuda a esclarecer essa intuição: o olho existe para ver, e vê com maior perfeição quando a luz é adequada e o objeto está no ângulo certo. O intelecto existe para conhecer a verdade, e conhece com maior perfeição quando se volta para a verdade suprema. Aristóteles acrescenta que essa contemplação traz um prazer de maravilhosa pureza; não o prazer fugaz dos sentidos, mas uma satisfação que deixa o espírito plenamente realizado.
Uma possível objeção a esse ideal é sua aparente inacessibilidade: parece destinado a filósofos, não à pessoa comum. O educador italiano Mario Casotti, influenciado pelo pensamento de Santo Tomás, responde a tal questionamento: Aquilo que os gregos intuíram de modo imperfeito no teatro — a contemplação do divino, o ver a Deus — é precisamente o que todo cristão realiza, de modo incomparavelmente mais perfeito, na Santa Missa.

Na liturgia eucarística, a senhora mais humilde da paróquia, sem nenhuma instrução filosófica, faz exatamente o que Aristóteles reconheceu como o ato mais elevado do ser humano: ouve a Palavra, exercita a inteligência na fé, alimenta a vontade pelas virtudes do Evangelho e contempla o próprio Deus presente na Eucaristia. Ela faz isso sem saber que está realizando a felicidade perfeita descrita na Ética a Nicômaco, mas o faz.
A educação clássica, nesse sentido, apresenta-se como um valioso instrumento para vivermos mais intensa e profudaente este ideal de vida. Sim, é verdade que a fé não precisa da filosofia para ser autêntica. Mas a filosofia pode enriquecer imensamente a fé, dando-lhe um fundamento mais firme e maior ressonância contemplativa. Essa é, em última análise, a ambição da paideia: não produzir especialistas, mas formar seres humanos capazes de contemplar e encontrar, como Aristóteles prometeu e a fé confirma, a plenitude do próprio ser.
Aprofunde-se nos fundamentos da educação clássica
Se este artigo despertou em você o desejo de estudar a tradição formativa de Aristóteles e São Tomás com rigor e acompanhamento, a mentoria de Fundamentos da Educação Clássica oferece esse percurso no espírito da synousia — o caminhar conjunto que é, ele mesmo, uma forma de paideia.
As inscrições para a próxima turma estão se encerrando. Quem tiver interesse encontra neste momento a oportunidade de garantir sua vaga.


Comentários